Recriando memórias

“Caí do cavalo. Cá estou eu quase na casa dos 30 e me dando conta de tudo isso meio tarde. Mas tem outra cláusula que diz que nunca é tarde demais.”

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Existe uma cláusula no contrato que fazemos com a vida que discorre sobre o amor. Sim, aquele amor incondicional com o qual sonhamos por toda uma vida. Nessa cláusula, tudo parece ser tão incrivelmente lindo que não nos damos ao trabalho de ler. Simplesmente absorvemos essa palavrinha minúscula e nos agarramos a ela acreditando que todo o resto que foi lido seja ‘compensado’ por um evento que supostamente mudará a nossa vida. E então nascemos, e se não bastasse o simples fato de cair de pára-quedas num mundo desconhecido e louco ainda temos que seguir um manual invisível que vem acoplado ao nosso cérebro como um adesivo impossível de se retirar. Ele fica bem diante dos nossos olhos. É muito chato. Quase me deixou maluco quando me dei conta dele esses dias.

Como se não bastasse o fato de não lermos essa clausula tentadora sobre o amor, tem esse adesivo ditatório mental sobre o qual nunca nos debruçamos. Nem por curiosidade. Então a vida, que foi feita inquestionavelmente sublime, se torna um caos. Literalmente um caos. E ainda tem o amor. Esse amor que nem sei se existe. Uma palavra como todas as outras que foram criadas e que de trás pra frente é só uma reciclagem de outra (pô poderiam ter sido mais originais. Como foram com ‘saudades’, pelo menos, mas porque que ser Roma às avessas? Se eu tivesse inventado teria sido mais original); ou será que o amor veio antes e o homem na sua preguiça infinita achou que Roma era a personificação do amor e inverteu a palavra pra não ser pretensioso demais por chamá-la de amor, ou ainda, isso nada mais é do que uma metáfora e aquele lugarzinho nada mais é do que tudo, menos amor. Cara, preciso conhecer Roma…

(…)

E essa cláusula me persegue há muito tempo. A ponto de eu, em algum momento da minha vida breve, ter criado amores imaginários para suprir o tempo de espera do amor (de novo essa palavra estranha e misteriosa) chegar e mudar minha existência comum e mundana. Na verdade eu esperava. Ontem eu revirei minhas gavetas mentais e decidir finalmente dar uma olhada nesse contrato. Saber o que foi que eu assinei (nunca assine nada sem ler, okay?!). E não é que eu estava certo. Eu estou feito um idiota a mais de 20 anos dedicando parte da minha vida a um evento que não vai existir e que se existir não tem um jeito certo de acontecer. E pode não acontecer. A menos que exista uma cláusula diferente pra outras pessoas que digam em suma que ao invés de esperar a pessoa vai buscar seu amor. Por que se for; aí é pior ainda. Quanta bagunça, não? São 7 bilhões de pessoas no mundo. SETE BILHÕES por um, cara.

Dá não.

Chega.

Quero viver.

E se todo esse amor não passar de convenções humanas? Mas um desses dogmas ridículos que devemos seguir. Uma pessoa foi lá, leu seu adesivo, interpretou e lançou no mundo.  Eu não duvido. Você duvida? Não mesmo! A gente nasce, cresce, reproduz ou não e morre. Pronto. Nada de amor. Mais calma. O amor é lindo sim. O amor nas outras instâncias. Eu to falando do amor romântico, okay?! Não pira, eu pirei.

Então o que eu faço? Mato o Felipe da minha mente? Jogo as cartas e mando a vida se ferrar. Reconfiguro o que vem sendo disseminado há séculos e que eu também tomei como real? Não. Quem comprou a ideia fui eu. Agora EU que me vire com ela. O mundo nada tem a haver com isso. O mundo só é um comerciante de infinitas possibilidades. Aos 8 eu achava que tudo seria melhor quando aquele alguém que estava só na minha mente iria se materializar, dividir comigo seu mundo e seriamos menos infelizes juntos (eu não sou infeliz, mas dizem que o amor torna-nos felizes). Juntos, meia felicidade minha com a parte dele e BINGO, seríamos felizes. Mesmo diante das dificuldades. Não estaríamos sozinhos no mundo.

Caí do cavalo. Cá estou eu quase na casa dos 30 e me dando conta de tudo isso meio tarde. Mas tem outra cláusula que diz que nunca é tarde demais. (…)

Então é assim: Eu pretendo cultivar outras coisas no caminho por onde eu andar e deixar que, se a vida quiser, só se ela quiser, me surpreender eu vou estar aqui. E nada de fechar coração, porque no fim das contas o amoroma sendo sentimento ou lugar ao avesso é bonito. Até posso dizer que se é criação humana, então foi a melhor de todas e que o homem um dia teve salvação e pode ter ainda.

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